Audição e Síndrome de Down: O Elo entre o Cuidado Clínico e a Inclusão Plena

Dra. Daniela Thomé

24 de abril de 2026

Garantir que as pessoas com síndrome de Down desenvolvam todo o seu potencial de comunicação depende de um cuidado que, muitas vezes, não recebe a atenção necessária: a saúde auditiva. A audição é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento da fala, para a alfabetização e para as interações sociais. Por isso, este sentido exige um olhar atento e especializado desde os primeiros dias de vida até a maturidade, funcionando como uma ponte essencial para a autonomia e qualidade de vida.


Devido a características anatômicas e funcionais comuns à síndrome, a grande maioria destas pessoas enfrentará desafios auditivos em algum momento da sua trajetória. Essa vigilância deve ser rigorosa e precoce. A Academia Americana de Pediatria destaca a relevância deste acompanhamento ao recomendar que o seguimento auditivo seja realizado semestralmente nos primeiros anos de vida, passando a ser anual após os 5 anos de idade.


Enquanto a perda auditiva congênita pode ser identificada logo após o nascimento, outra situação frequente surge durante a infância: a otite média secretora. Esta condição, marcada pelo acúmulo de líquido no ouvido médio, atinge cerca de 80% das crianças com a síndrome. A boa notícia é que a medicina oferece hoje abordagens eficazes que, ao restabelecerem a audição, criam o ambiente ideal para que a criança explore todas as suas capacidades de aprendizado.


Com o passar dos anos, surge um novo ponto de atenção: a presbiacusia (perda auditiva relacionada ao envelhecimento). Na população com síndrome de Down, este processo tende a ocorrer de forma mais precoce, manifestando-se frequentemente a partir dos 30 anos. Isto reforça que o cuidado com a audição não é apenas uma etapa da infância, mas um compromisso que deve acompanhar a pessoa em todas as fases da vida.


Na vida adulta, ouvir bem é sinônimo de manter-se presente na comunidade e proteger a saúde cerebral. Hoje, a ciência comprova que uma audição bem cuidada previne o isolamento social e previne a deteriorização da memória. Assim, realizar check-ups anuais e observar sinais simples — como a necessidade de aumentar o volume da TV ou a falta de resposta a estímulos sonoros — são atitudes fundamentais para o bem-estar contínuo.


Garantir que a pessoa com síndrome de Down ouça com clareza é, fundamentalmente, assegurar o seu direito de pertencer. Quando cuidamos da audição, estamos oferecendo as condições necessárias para que cada indivíduo aprenda com o mundo e trilhe sua própria jornada com a confiança de quem pode ouvir e se expressar em todas as etapas da vida.


Fontes:

Zalzal HG, Lawlor CM. Down syndrome for the otolaryngologist: a review. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2023 Apr 1;149(4):360-367. doi:10.1001/jamaoto.2023.0001. PMID:36862403.

Bull MJ, Committee on Genetics. Health supervision for children and adolescents with Down syndrome. Pediatrics. 2022 May;149(5):e2022057010.

Dra. Daniela Thomé

Médica Otorrinolaringologista e Doutora em Ciencias Médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Médica Pesquisadora e Fundadora do Ambulatorio de Síndrome de Down do Departamento de Otorrinolaringologia do Hospital das Clinicas da FMUSP Assessora Cientifica da Rede Buriti- SD